quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Persépolis

O que fazer quando você é uma bela mulher que cresceu numa família de intelectuais comunistas em meio à conturbada história recente do Irã? Bem, você se estabelece em Paris e faz uma história em quadrinhos contando tudo o que viu. Depois disso, faz um filme sensacional pra mostrar, em noventa minutos, um pouco desse processo que durou mais de dez anos. O resultado é uma belíssima animação resumindo informações sobre as revoluções políticas e culturais que aconteceram em Teerã e na cabeça de Marjane Satrapi, a bela mulher em questão.

Persépolis (Persepolis), de Marjane Satrapi, 2007.

Senhores do Crime

Fiquei com medo, muito medo de Londres após ver o novo filme de David Cronenberg. Mas ele parece nos avisar que só precisa ter medo quem está envolvido com a máfia russa atuante na capital britânica. Pelo menos é o que descobre uma enfermeira que ajuda no parto de um bebê cuja mãe morre e só deixa um diário escrito em russo. Além disso, vê-se o cotidiano da família mafiosa, coisa que depois depois de tantos filmes desse tipo pode soar batido mas que Cronenberg filma com maestria.

Senhores do Crime (Eastern Promisses), de David Cronenberg, 2007.

Este Filme Ainda Não Tem Censura

Quem são as pessoas que estabelecem a censura dos filmes nos Estados Unidos? Lá, muito mais que aqui, esse assunto é complicado e ter um filme proibido para menores pode significar perda de dinheiro. Para descobrir, nada melhor que contratar uma espiã e ir atrás da MPAA, o poderoso órgão da indústria americana do cinema. A lei indica que hoje, ao fazer um documentário, ele precisa ser engraçadinho e não mostrar alternativas, à Michael Moore. Indica também que o diretor deve aparecer toda hora, por mais que isso seja dispensável. Este aqui às vezes é arrastado, apesar de ter seus momentos felizes onde até damos algumas risadas.

Este Filme Ainda Não Tem Censura (This Film Is Not Yet Rated), de Kirby Dick, 2006.

Redacted

"Redacted" é horrível, no melhor dos sentidos. Há tempos não saía tão chocado do cinema. Talvez o filme nem seja maravilhoso, mas o simples fato de Brian De Palma denunciar duma forma tão contundente os horrores da guerra no Iraque, já o faz merecer atenção. O mote do filme é o estupro de uma garota iraquiana cometido por militares americanos e o diretor recria em torno desse fato histórias reais encontradas na internet. Como o próprio De Palma disse, "Redacted" (que significa "editado") mostra o que acontece no Iraque sem o filtro da mídia, que noticia "na base da omissão, da mentira e da censura". Mais político, impossível.

Redacted, de Brian De Palma, 2007.

Estômago

O paraibano Raimundo Nonato (João Miguel) migra para o Sudeste do país sem nenhum tostão e acaba desenvolvendo seu talento pela culinária. Depois de um tempo, ele descobre que pode ganhar as pessoas pelo estômago (trocadilho inevitável) conseguindo assim dinheiro, status e mulheres. Ao longo do filme, o personagem adquire cada vez mais malícia e, comendo quieto, aprende as regras do poder. O humor se dá pelo encontro inusitado entre o mundo da culinária sofisticada e o dos personagens mais humildes. Em algumas partes, o filme não deixa o espectador pensar por si mesmo, e mastiga tudinho pra ser engolido sem trabalho. Depois de assistir Estômago, você nunca mais comerá em um boteco qualquer da mesma maneira.


Estômago, Marcos Jorge, 2007

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Passado

Diversas sinopses do filme o descreviam mais ou menos assim: "O Passado" é um filme sobre Remini (Gael Garcia Bernal), que não consegue seguir sua vida amorosa porque sua ex-mulher, com quem viveu por 12 anos, o persegue. Contudo, o longa mostra muito mais um homem perdido no meio de um monte de mulheres mal amadas, carentes e loucas. Enquanto uma o persegue, a outra tem ciúmes até de uma criança, e uma terceira o trata como um gigolô. Para completar, o roteiro começa bem, mas descamba no meio, até o ponto que o espectador pensa: "que diabos o Gael está fazendo numa academia de ginástica?"

O Passado
(El Pasado), de Hector Babenco, 2007.

domingo, 28 de outubro de 2007

I'm Not There

Documentário, obra de ficção, entrevista para a TV? O filme-homenagem sobre Bob Dylan, é tudo isso. Como na múltipla vida do cantor americano, o roteiro de "I'm Not There" é múltiplo e se divide em partes independentes, cada uma contando diferentes fases da vida de Dylan com a ajuda de personagens que não são Dylan. É um trabalho de quebra-cabeça, de juntar as peças, que se mostra extremamente feliz, diferente e mais arejado que qualquer outra cinebiografia.

I'm Not There, de Todd Haynes, 2007.

sábado, 27 de outubro de 2007

Angel

Peço desculpas aos fãs de François Ozon, mas "Angel" não é bom. Por mais que se diga que o diretor faz uma homenagem aos melodramas de antigamente, não posso deixar de apontar que este filme é piegas até não poder mais. Mortes dramáticas, beijo na chuva, ascensões e quedas sociais... Sério candidato a passar na Sessão da Tarde daqui a uns anos, esse será o momento em que o cinema cult francês (falado em inglês) chegará às casas da população brasileira.

Angel (Angel), de François Ozon, 2007.

Santiago

Muito mais que um documentário sobre Santiago, o mordomo da família Unibanco, "Santiago" é um documentário sobre João e a relação de poder que existia entre o chefe e o empregado. É interessante assitir ao processo de filmagem lá em 1992 e ouvir as mea-culpas de hoje feitas pelo documentarista. Às vezes o documentário de então parecia mais uma brincadeira do filho do patrão, do Joãozinho, que decidiu filmar alguma coisa ou precisava fazer algum trabalho pra faculdade e acabou por encontrar a comodidade na sensacional figura de Santiago.

Santiago, de João Moreira Salles, 2007.

Sonhando Acordado

Parece que os críticos brasileiros combinaram de todos falarem mal de "Sonhando Acordado", novo do Michel Gondry, mas posso dizer que gostei do que vi. Um simpático Gael Garcia Bernal faz o papel de Stéphane, recém-chegado a Paris que irá se envolver com colegas de trabalho estranhíssimos e conhecerá sua vizinha tão estranha quanto, Stéphanie. Com exceção do título traduzido (que, como se não bastasse ser ruim, é repetido), o resto é bem bom: mergulhar no mundo de sonhos criado pelo diretor é praticamente mergulhar na nossa própria mente e nos nossos próprios sonhos.

Sonhando Acordado (La Science des Rêves), de Michel Gondry, 2006.

Morte do Presidente

"Morte do Presidente" era um filme que eu tinha curiosidade mórbida (com o perdão do trocadilho) desde que ouvi falar, no ano passado. Trata-se do documentário que explica com todos os detalhes a morte de George W. Bush e a investigação que se deu após o incidente. O presidente morreu assassinado em Chicago, no dia 19 de Outubro de 2007. Muito bem feito, mistura cenas reais com ficção e parece mesmo um documentário verídico, mas peca em algumas atuações.

Morte do Presidente (Death of a President), de Gabriel Range, 2006.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

À Prova de Morte

Em "À Prova de Morte", Tarantino conseguiu fazer um filme fiel ao próprio universo, com todos seus ingredientes: humor negro, sadismo, dancinhas, violência, e muitos diálogos inteligentes. O pretexto foi homenagear os filmes b dos anos 70, que utilizavam de erotismo e violência trash para atrair público. Muitos dos diálogos e cenas do filme parecem servir a um objetivo: fazer um grande final. E assim, mesmo que você não tenha se empolgado muito durante os ótimos diálogos, como: "Ei, Warren, quem é esse cara?", "É o dublê Mike", "E quem diabos é o dublê Mike?", "Ele é dublê", ficará alucinado com a cena de perseguição final. Isso se você não tiver nada contra o humor de Tarantino, claro!

À Prova de Morte (Death Proof), de Quentin Tarantino, 2007.

Viagem a Darjeeling

O filme do Wes Anderson, "Viagem a Darjeeling", é bacana, mas nada mais que isso. Começo a achar que seu estilo plástico, bonito e detalhista está chegando à fase de saturação. Seus cenários são sempre incríveis, mas acabam se tornando um pouco cansativos com o número de informações presentes ao mesmo tempo. Some-se a isso os personagens e a história e pronto: estafa. O grande problema é que se ele fizer algo diferente, vai ser acusado de, bem, ter feito algo diferente. Isso é complicado para alguém que também é acusado desde sempre de fazer o mesmo filme ano após ano.

Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited), de Wes Anderson, 2007.

PS: Há controvérsias quanto ao nome do filme em português. O título aqui utilizado é o da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No Festival do Rio a produção chamava-se "O Expresso Darjeeling".